Hiperatividade, déficit de atenção, transtorno de concentração. Muitos diagnósticos para um problema só: estamos cada vez mais desatentos. E as crianças também
Conversamos com o pesquisador alemão Christoph Türcke, autor de “Hiperativos – Abaixo à cultura do déficit de atenção". Para ele, "o excesso de informações que recebemos conspira para desgastar nossa capacidade de concentração".
Feche os olhos e reflita: quantas vezes você ouviu, nos últimos tempos, alguém dizer “meu filho é hiperativo”? Ou “Meu filho tem TDAH”?
O rótulo é colocado nas crianças de forma cada vez mais leviana e naturalizada na sociedade. De onde vem isso? O chamado “transtorno de déficit de atenção”, conhecido como TDAH, é um termo que vem da Psiquiatria moderna para definir algo que todos já sabemos: as crianças estão cada vez mais desatentas e ansiosas.
Porém, o que parece um diagnóstico seguro, não passa de uma definição redundante para algo que precisa ser olhado mais de perto. Ou seja: por que as crianças estão tão desatentas? Por que os adultos estão? Por que todos estamos?
Essas e outras provocações estão na primeira parte do livro “Hiperativos – Abaixo à cultura do déficit de atenção” (editora Paz&Terra, grupo Record, 2017), última tradução no Brasil do renomado professor de filosofia alemão Christoph Türcke. Nele, o professor aponta para os principais perigos do excesso de informações ao qual as crianças são submetidas, e indica soluções possíveis para minimizar os danos de tanta tecnologia, estímulos sonoros e visuais.
Christoph propõe o retorno à “cultura do ritual”, no qual a escola é responsável por oferecer um ambiente de tranquilidade para as crianças, de modo que elas possam ali fortalecer sua energia vital para lidar com as questões que o mundo impõe.
Mais do que isso, a ‘cultural do ritual’ entende a escola não como um lugar impositivo, que propõe tarefas de modo calculado, verticalizado e, por vezes, até tirano, mas sim como um ambiente de ampliação de ideias. Como afirma a educadora argentina Silvia Bleichmar, a escola deve ser um “lugar de recuperação de sonhos”.
O autor fala também sobre o perigo do papel central que os tablets, games, computadores e celulares têm ocupado na vida das pessoas, e acusa aí a maior fonte de desatenção.
“Aparelhos eletrônicos modificam drasticamente nossa forma de aprender, esquecer e reagir aos estímulos”
Apesar de entendermos uma criança como um indivíduo pleno e integral, sabemos que ainda assim elas são seres com pouco ou nenhum poder de escolha, uma vez que são os pais que decidem o que vão comer, usar e vestir. Nesse cenário de poucas escolhas e muitos estímulos, cada vez mais as crianças copiam o comportamento dos pais: como se relacionam, o que gostam de fazer, quais valores praticam no dia a dia.
“Crianças são as vítimas mais vulneráveis do comportamento adulto”
“Crianças diagnosticadas com transtorno de déficit de atenção (TDAH) e hiperatividade não são uma exceção, doentes que contrastam com um ambiente saudável e tranquilo, mas sim as vítimas mais vulneráveis que apresentam, em seu comportamento, uma caricatura do mundo adulto”, explica o pesquisador.
“A agitação de uma criança só pode ser razoavelmente julgada em relação ao comportamento geral de uma criança e de seu ambiente social”
Confira o bate-papo
O livro mais famoso de Christoph Türcke é “A sociedade excitada”, lançado no Brasil em 2010. É onde o professor faz uma primeira crítica à cultura do excesso: para ele, tudo é muito, do sabor do sorvete ao barulho nas ruas. Tudo é excessivamente doce, barulhento, salgado, e por aí vai. A teoria de Türcke é que tudo isso nos anestesiou, e nos deixou inertes. Para lutar contra isso, só a resistência e disposição para criar tempo, exercitar a escuta, e redirecionar o olhar.